domingo, 15 de abril de 2012

Sobre o silêncio

"Era uma noite clara, de lua. Os dois foram conversando até o Parque. Havia muito sobre o que conversar, como falavam! Devassavam as razões da existência, descobriam a natureza íntima das coisas, tentavam penetrar no mistério do ser.
    - Estamos imprensados entre estes dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos. 
    - Não há problemas: só há soluções.
    - Só há uma solução: morrer.
    - As nossas contradições. Vivemos segundo nossas emoções do momento, procurando localizar, descobrir uma constante e dizer: isso sou eu. 
    - Ninguém entende nada de nada.
Passaram pela ponte rústica, de madeira já podre, ganharam a ilha deserta, no meio do lago já seco. Havia uma touceira de arbustos, um banco de pedra, uma estátua de mármore pálida de lua. Sentaram-se no banco e se calaram, tentando entender o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de entendimento perfeito. 
    - Eduardo.
    - O quê?
    - Estou com medo.
    - Eu também." - O Encontro Marcado, Fernando Sabino, páginas 92 e 93. 

domingo, 8 de abril de 2012

Sobre o "seu mundo"

Da sala de estar já se sentia seu cheiro, embora fosse, talvez, da cigarrilha. Depois de um corredor escuro e sombrio, lá se encontrava "seu mundo". Um emaranhado de letras e melodias, filmes e nostalgia em forma de retrato. Pinduricalhos, como alguém diria, um instrumento musical (não, dois!) e, claro, tecnologia (em uso e estragada!). Uma raquete de tênis empoeirada, uma caixa enfeitada (coisas de ex-namorada!), um cinzeiro. Livros, milhares, roubados, ganhados e comprados. O marcador no Kundera. Skol. Cama sem fazer. Uma cadeira vermelha, desenhos. Cds de invejar qualquer colecionador. Um ventilador aposentado, que só fez falta por algumas horas, poucas das quais estive ali. O entardecer na Carlos Gomes veio logo com a vontade da lua aparecer (a que não te encanta!). Surpresas embrulhadas: a caixinha azul ao acaso (ao acaso?!), dentro dela o poema. E o Encontro Marcado, cujas primeiras páginas leu pra mim, quase em devaneio, tamanha satisfação! Da falta de som de verdade veio a ideia da pizza no supermercado. Rocky Balboa no talo! Da janela viu-se cultura: procissão da Semana Santa. Também não faltou política. Foi quando eu te pedi pra apagar a luz. Ao som das músicas proibidas conversamos mais um pouco sobre nada. Sonho de adolescente realizado. Você de olhos fechados, eu a te observar. Não fora a madrugada adentrando serena, teria ficado ali por muito mais tempo... tempo todavia  insuficiente pra tudo que se deseja viver nesse "mundo de meia-tigela inteira"... 


"Se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz." - Saint-Exupéry

terça-feira, 3 de abril de 2012

A menina da Montanha Mágica

Há trinta e três anos atrás uma menina de cabelos longos e lisos veio ao mundo pra ver o sol se pôr a cada entardecer. Veio colorir desenhos e rabiscar sentimentos, fazer sorrir a gente e fazer chorar também, que não tem jeito. Veio conhecer o amor, a dor, a fé e a solidão; cantar cantigas de ninar pra gente pequena, balançar num balanço de madeira, ler as ideias nos livros e escrever as suas. Veio pra correr montanhas, sentir cheiro de café vindo da cozinha, escutar as gargalhadas das tias costurando na sala, andar descalça pela casa, fazer fogueira em noite junina, conversar com alguém na penumbra. Veio conhecer o distante, falar línguas de outros povos, desentender o compasso do piano, apaixonar-se. Veio velejar em barcos escandinavos, brincar com a neve branquinha, pular em trampolins de alcançar as nuvens, passar noites em claro lendo e escutando melodias. Veio fazer-se e desfazer-se nas amizades, nos amores interinos e estrangeiros. Veio conhecer a estrada, os códigos e as leis, os sons das palavras não ditas, as doenças da alma. Veio sentir no paladar o gosto do sorvete de chocolate, da maçã do amor no parque, de pizza quentinha saindo do forno à lenha,  o gosto do amargo e da pequenez. Veio brincar de casinha debaixo de coqueiros, dançar balé no colégio, nadar no rio feito piaba, brincar de pique-esconde e amarelinha. Veio aprender a dirigir em alta velocidade, ser outras pessoas nas peças de teatro, bagunçar o quarto após cada arrumação. Veio ver filmes inventados, morar sob tetos desconhecidos, colecionar moedas num cofrinho com um sorriso. Veio ver as estrelas da varanda de casa, carregar caixas de leite até o armário, plantar árvores nos dias verdes, sonhar. Veio fazer não se sabe o quê, de tanta coisa! E dizem por aí que essa menina há muito habita a casa da Montanha Mágica, que adora tanto as visitas rotineiras quanto as inesperadas, que por lá gosta muito de contar estórias e que, a cada aniversário, faz um pedido secreto como sempre, mas à noite, deitada em seu travesseiro, fecha os olhos e revive seu mundo de faz-de-contas na eterna esperança de que aquilo se repita por muitos e muitos anos...

*Foto: aniversário de 3 anos em Araçuaí

domingo, 25 de março de 2012

Sobre o mistério de escrever


«Mil anos que escrevas», disse,
«não saberás a quem.» 
                                              Maria Gabriela Llansol

Canção de outono

"O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...


Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...


Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!" - Quintana de Bolso, p. 28

sábado, 24 de março de 2012

Sobre o inesquecível

Do oitavo andar da Marquês do Herval uma guria ansiosa se maquiava enquanto observava a cidade verde anoitecer. O relógio já marcava 19h quando entraram no táxi rumo à  Livraria Cultura do Bourbon no Passo D'Areia. Não fosse pelo motorista indignado com a modernização da cidade, a brilhante ideia do que escrever nas dedicatórias não lhe teria vindo à tona: "Que o conteúdo faça valer as primeiras impressões do princípio ao fim!".  
No mezanino muitos não havia, mas havia muito do que era importante. Sorrisos, olhares, fotografias, encontros e reencontros, sempre com a caneta na mão. Ao escrever nos exemplares daqueles que estavam ali, e em outros de quem também não estava, pensava nas inúmeras mensagens de carinho recebidas ao longo da semana. Aquele momento era certamente um sonho "de verdade" e provocava emoções em grandes doses de realidade. 
Todo o resto, o "Parcão", a caminhada de 40 minutos até o Parque Farroupilha, a feirinha e a torrada com presunto e queijo no Brique da Redenção, a visita à Casa de Cultura Mário Quintana, a caminhada pelo centro da cidade, o almoço no Mercado Público, o sorvete na Banca 40, o passeio a céu aberto na Linha Turismo Roteiro Centro Histórico, a caminhada na pista da Usina do Gasômetro, o jantar no Shopping Moinhos de Vento, a noite na Padre Chagas, o banho de sol no tour da Zona Sul até o Santuário Nossa Senhora Mãe de Deus, o capuccino na Petites Délices, o retorno à Livraria Cultura antes do filme "As mulheres do 6 andar" no cinema do Bourbon, o almoço no self-service, o pôr-do-sol no passeio de barco pela orla do Guaíba, a aventura até a rua Cipó para o bauru e a cerveja da Coruja na "Chinelagem", vieram antes e depois, pra complementar o inesquecível de uma forma sem igual.*

*Porto Alegre, 16, 17, 18 e 19 de março de 2012. Lançamento do meu primeiro livro.


domingo, 11 de março de 2012

Sobre o tempo

“O que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. 
É uma condição do mundo exterior; 
é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. (...)
Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?” Thomas Mann


"Que palavra sagaz, veloz o suficiente
é capaz de dizer deste presente
em que o corpo é mero invólucro de unidades produtivas
em que o pensamento só pensa o dia por cifras?" Luciana Toneli


"O que é ter tempo? 
O que é viver o tempo?
O tempo não é uma entidade fora do homem,
não é, tampouco, algo interior ao homem. 
O tempo é, originalmente, o seu poder-ser.
O tempo autêntico é viver no horizonte das possibilidades.
A dinâmica de vida não é demarcada pelo presente, pelo agora ou pela sucessão de instantes,
mas pelo que é possível realizar." Edson Cruz/Martin Heidegger


"Enquanto vivermos ainda estaremos envolvidos com as nossas possibilidades.
Nessa concepção, viver o tempo e ter tempo significam realizar, constantemente,
o que pode completar o nosso ser." Ibraim Vítor de Oliveira

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre o vazio

vazio é a ausência na presença
é a euforia sem cor
o fazer sem sentido
a alma sem porto
o belo sem gosto
é transbordar amor sem amor


é o destinatário sem remetente
a cegueira no clarão
é o possuir sem destino
é o vôo sem razão


é a indubitável vontade do imutável
é a invenção do querer que não se quer
a pretensão à incerteza interminável
a escravidão ao eu espelhado
e a espera eterna do que nunca será

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Carta do Envelope Azul


E foi bem aqui da naus à deriva que num dia chuvoso de dezembro recebi as primeiras valiosas pílulas de nada... Compreender as “várias variáveis dos intertextos” me custou algumas horas de imaginação, e ainda assim o tudo que consegui entender sei que só eu entendo, dado que entender é pessoal.  O escritor não se encontrava tão perto e a leitora partiria em alguns dias, bem à tempo para o desencontro. “Encasmurrado” entre o mar e o que havia do outro lado da janela, o escritor se sentia cada vez mais perto de si, embora longe estivesse. Preferia a madrugada, a cerveja, saias escocesas, tatuagens, Engenheiros, era de leão. Prometeu “My blueberry nights”, músicas no violão, histórias da mãe que já não mais estava. E falou do Pessoa, do Machado, do Antunes, disse que era burocrata, mas estudava as “Letras” por opção. Usava expressões em inglês, em espanhol e em francês, mas tinha largado o alemão. Era viciado em chá-mate. Ia ao Rio para um show, depois para Buenos Aires, então voltava pra São Vicente, chegava em Belo Horizonte, tirava férias e pra Buenos ia novamente em Fevereiro. Fez lista de namoradas, enviou duas músicas suas, tocadas no violão. Não gosta de vinho, nem de “japa” e nem de jazz. Escreveu sobre a solidão. Usava óculos e barba. “Cabelos longos não usa mais”, como os do Gessinger, cujo livro se deu de presente de Natal. E sobre o matrimônio, não lhe agradava a ideia do “circo”, embora acreditasse na “União”, onde, por sinal, morava. Fez um convite para o “Dreams” do Cranberries e falou com muito carinho da “Junim” e da “Pulinha”. E quanto mais a leitora o lia, mais curiosa permanecia. Leu sobre o enlace dos pais, sobre a ida na padaria, sobre “chovendo por dentro, impossível por fora”, sobre os “desamantes latinos”, sobre “Mea Culpa” e o “Apostólico Passo”, sobre a enquete do “Genérico”: na marcha-ré, tantas palavras até março! O escritor não fuma, não cozinha, mas quer aprender (a cozinhar). Era Gary May, em 1997: “Just a matter of time”. A leitora então riu horrores do balzaco doido, que se queria feixe, mandava linha; se queria linha, mandava ponto. Era um exército de um homem só, no difícil exercício de viver em paz! Pediu à leitora um texto, cujas linhas tem em mãos. Era pra versar sobre a terra de Rachel de Queiroz, de Clóvis de Beviláqua e de José de Alencar, lá na pontinha do mapa, perto de onde Lula veio num pau-de-arara, terra da luz, terra do queijo qualho, das mulheres rendeiras, da maior rapadura do mundo, da cachaça ypióca, do humor nordestino, da carne de sol, da farinha, das casas de taipa, da macaxeira, das plantações de côco-anão, dos cajueiros, das redes nas varandas, das praias paradisíacas, das areias sem fim... 
Porém, a leitora, quando faz as malas, agora não escreve mais: sente, vê, experimenta. E lê. E leu um “bom selecionador do que merece reciclagem e incorporação.” E a leitora, em alguns momentos da viagem verdadeira, achou que estivesse em outra, parecida com aquelas estórias que, de tão interessantes, fingimos não ter chegado ainda ao seu final. O marcador fica em qualquer página, que quando algo lhe causa suspiros é porque merece ser relido. Releu várias vezes o Gabriel e resolveu que as pré-primeiras impressões mereciam mais linhas. Travar conhecimento, agora, valia mais do que uma mera noite de autógrafos... *
* Belo Horizonte, 09 de janeiro de 2010