«Mil anos que escrevas», disse,
«não saberás a quem.»
Maria Gabriela Llansol
"A montanha mágica é, na verdade, o mais completo retrato de uma vida à procura de um sentido que a explique e justifique." Thomas Mann
"O outono toca realejo
vazio é a ausência na presença
E
foi bem aqui da naus à deriva que num dia chuvoso de dezembro recebi
as primeiras valiosas pílulas de nada... Compreender as “várias
variáveis dos intertextos” me custou algumas horas de imaginação,
e ainda assim o tudo que consegui entender sei que só eu entendo,
dado que entender é pessoal. O escritor não se encontrava tão
perto e a leitora partiria em alguns dias, bem à tempo para o
desencontro. “Encasmurrado” entre o mar e o que havia do outro
lado da janela, o escritor se sentia cada vez mais perto de si,
embora longe estivesse. Preferia a madrugada, a cerveja, saias
escocesas, tatuagens, Engenheiros, era de leão. Prometeu “My
blueberry nights”, músicas no violão, histórias da mãe que já
não mais estava. E falou do Pessoa, do Machado, do Antunes, disse
que era burocrata, mas estudava as “Letras” por opção. Usava
expressões em inglês, em espanhol e em francês, mas tinha largado
o alemão. Era viciado em chá-mate. Ia ao Rio para um show, depois
para Buenos Aires, então voltava pra São Vicente, chegava em Belo
Horizonte, tirava férias e pra Buenos ia novamente em Fevereiro. Fez
lista de namoradas, enviou duas músicas suas, tocadas no violão.
Não gosta de vinho, nem de “japa” e nem de jazz. Escreveu sobre
a solidão. Usava óculos e barba. “Cabelos longos não usa mais”,
como os do Gessinger, cujo livro se deu de presente de Natal. E sobre
o matrimônio, não lhe agradava a ideia do “circo”, embora
acreditasse na “União”, onde, por sinal, morava. Fez um convite
para o “Dreams” do Cranberries e falou com muito carinho da
“Junim” e da “Pulinha”. E quanto mais a leitora o lia, mais
curiosa permanecia. Leu sobre o enlace dos pais, sobre a ida na
padaria, sobre “chovendo por dentro, impossível por fora”, sobre
os “desamantes latinos”, sobre “Mea Culpa” e o “Apostólico
Passo”, sobre a enquete do “Genérico”: na marcha-ré, tantas
palavras até março! O escritor não fuma, não cozinha, mas quer
aprender (a cozinhar). Era Gary May, em 1997: “Just a matter of
time”. A leitora então riu horrores do balzaco doido, que se
queria feixe, mandava linha; se queria linha, mandava ponto. Era um
exército de um homem só, no difícil exercício de viver em paz!
Pediu à leitora um texto, cujas linhas tem em mãos. Era pra versar
sobre a terra de Rachel de Queiroz, de Clóvis de Beviláqua e de
José de Alencar, lá na pontinha do mapa, perto de onde Lula veio
num pau-de-arara, terra da luz, terra do queijo qualho, das mulheres
rendeiras, da maior rapadura do mundo, da cachaça ypióca, do humor
nordestino, da carne de sol, da farinha, das casas de taipa, da
macaxeira, das plantações de côco-anão, dos cajueiros, das redes
nas varandas, das praias paradisíacas, das areias sem fim...
Por trás desse paletó disfarçado,