Qualquer mulher daquele mundo adorava receber flores e chocolate de presente. Nem precisava ser tão romântica assim, já que convencionara-se que tal feito era sinal de carinho e importância. Ela, no entanto, apesar do coração leve, nunca gostara muito daquela ideia. De fato, nada tinha contra o chocolate, seu pecado cotidiano insaciável, mas as flores, essas lhe surtiam como um verdadeiro problema: exceto as flores de plástico, que nunca morrem, todas as outras tinham seus dias contados. E fora justamente num dia enluarado de abril que ganhara de aniversário um chocolate e uma "kalanchoe". A princípio, aquele presente lhe soara mais incrível do que nunca, mas ao chegar em casa deparou-se com a conhecida ilusão: "Essas flores, até quando?" Comera o chocolate em dois tempos e, de soslaio, todos os dias ia visitar a flor e a ilusão. Só que os dias foram passando, as estações mudando, e lá estava a flor, linda, sempre enfeitando seu dia. E de todas as flores, ela era a mais bela, delicada, às vezes lhe sorria. Passara, assim, a cuidar dela com mais apreço, e entendera, então, o significado de cada flor, por mais efêmera que fosse, e a intranquilidade do pequeno príncipe: para cada flor, uma razão. E particularmente em relação à "kalanchoe", de todas as flores do mundo, não existia outra que lhe trazia igual recordação. E desse dia em diante passou a admirar cada flor que encontrava pelo caminho, na tentativa, quase vã, de desvendar qual teria sido seu motivo e se teria, enfim, chegado ao seu destino...
"A montanha mágica é, na verdade, o mais completo retrato de uma vida à procura de um sentido que a explique e justifique." Thomas Mann
domingo, 29 de abril de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
Ticket to fly
Ganhara uma passagem de avião. Ida e volta. Isso já havia um quê de extraordinário, mas a descoberta mais notável daquele presente veio durante a viagem: não havia ganhado apenas uma passagem para voar, mas sim, uma passagem para realizar um sonho, junto. E tão incrível quanto tornar real um sonho próprio, talvez seja fazer parte da realização do sonho de alguém. Ainda mais se esse alguém se faz instantâneo e cotidiano em seu coração como nenhum outro alguém jamais pode fazer, que cada um é único. Do brilho nos olhos daquela noite a céu aberto e de todas as canções que nos soaram épicas e inéditas, back from the "Magical Mistery Tour", fica pra sempre a lembrança de ter sonhado "junto" ver, ao vivo, um dos eternos fab 4.
Because "the love you take is equal to the love you make." *
E como um "plus" veio o contentamento de ter vivido isso tudo com essa fantástica "Band on the Run"!!!!
*Paul MacCartney - Recife, 21 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
Sobre o silêncio
"Era uma noite clara, de lua. Os dois foram conversando até o Parque. Havia muito sobre o que conversar, como falavam! Devassavam as razões da existência, descobriam a natureza íntima das coisas, tentavam penetrar no mistério do ser.
- Estamos imprensados entre estes dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos.
- Não há problemas: só há soluções.
- Só há uma solução: morrer.
- As nossas contradições. Vivemos segundo nossas emoções do momento, procurando localizar, descobrir uma constante e dizer: isso sou eu.
- Ninguém entende nada de nada.
Passaram pela ponte rústica, de madeira já podre, ganharam a ilha deserta, no meio do lago já seco. Havia uma touceira de arbustos, um banco de pedra, uma estátua de mármore pálida de lua. Sentaram-se no banco e se calaram, tentando entender o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de entendimento perfeito.
- Eduardo.
- O quê?
- Estou com medo.
- Eu também." - O Encontro Marcado, Fernando Sabino, páginas 92 e 93.
domingo, 8 de abril de 2012
Sobre o "seu mundo"
"Se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz." - Saint-Exupéry
terça-feira, 3 de abril de 2012
A menina da Montanha Mágica
Há trinta e três anos atrás uma menina de cabelos longos e lisos veio ao mundo pra ver o sol se pôr a cada entardecer. Veio colorir desenhos e rabiscar sentimentos, fazer sorrir a gente e fazer chorar também, que não tem jeito. Veio conhecer o amor, a dor, a fé e a solidão; cantar cantigas de ninar pra gente pequena, balançar num balanço de madeira, ler as ideias nos livros e escrever as suas. Veio pra correr montanhas, sentir cheiro de café vindo da cozinha, escutar as gargalhadas das tias costurando na sala, andar descalça pela casa, fazer fogueira em noite junina, conversar com alguém na penumbra. Veio conhecer o distante, falar línguas de outros povos, desentender o compasso do piano, apaixonar-se. Veio velejar em barcos escandinavos, brincar com a neve branquinha, pular em trampolins de alcançar as nuvens, passar noites em claro lendo e escutando melodias. Veio fazer-se e desfazer-se nas amizades, nos amores interinos e estrangeiros. Veio conhecer a estrada, os códigos e as leis, os sons das palavras não ditas, as doenças da alma. Veio sentir no paladar o gosto do sorvete de chocolate, da maçã do amor no parque, de pizza quentinha saindo do forno à lenha, o gosto do amargo e da pequenez. Veio brincar de casinha debaixo de coqueiros, dançar balé no colégio, nadar no rio feito piaba, brincar de pique-esconde e amarelinha. Veio aprender a dirigir em alta velocidade, ser outras pessoas nas peças de teatro, bagunçar o quarto após cada arrumação. Veio ver filmes inventados, morar sob tetos desconhecidos, colecionar moedas num cofrinho com um sorriso. Veio ver as estrelas da varanda de casa, carregar caixas de leite até o armário, plantar árvores nos dias verdes, sonhar. Veio fazer não se sabe o quê, de tanta coisa! E dizem por aí que essa menina há muito habita a casa da Montanha Mágica, que adora tanto as visitas rotineiras quanto as inesperadas, que por lá gosta muito de contar estórias e que, a cada aniversário, faz um pedido secreto como sempre, mas à noite, deitada em seu travesseiro, fecha os olhos e revive seu mundo de faz-de-contas na eterna esperança de que aquilo se repita por muitos e muitos anos...
*Foto: aniversário de 3 anos em Araçuaí
domingo, 25 de março de 2012
Canção de outono
"O outono toca realejoNo pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!" - Quintana de Bolso, p. 28
sábado, 24 de março de 2012
Sobre o inesquecível
Do oitavo andar da Marquês do Herval uma guria ansiosa se maquiava enquanto observava a cidade verde anoitecer. O relógio já marcava 19h quando entraram no táxi rumo à Livraria Cultura do Bourbon no Passo D'Areia. Não fosse pelo motorista indignado com a modernização da cidade, a brilhante ideia do que escrever nas dedicatórias não lhe teria vindo à tona: "Que o conteúdo faça valer as primeiras impressões do princípio ao fim!".
No mezanino muitos não havia, mas havia muito do que era importante. Sorrisos, olhares, fotografias, encontros e reencontros, sempre com a caneta na mão. Ao escrever nos exemplares daqueles que estavam ali, e em outros de quem também não estava, pensava nas inúmeras mensagens de carinho recebidas ao longo da semana. Aquele momento era certamente um sonho "de verdade" e provocava emoções em grandes doses de realidade.
Todo o resto, o "Parcão", a caminhada de 40 minutos até o Parque Farroupilha, a feirinha e a torrada com presunto e queijo no Brique da Redenção, a visita à Casa de Cultura Mário Quintana, a caminhada pelo centro da cidade, o almoço no Mercado Público, o sorvete na Banca 40, o passeio a céu aberto na Linha Turismo Roteiro Centro Histórico, a caminhada na pista da Usina do Gasômetro, o jantar no Shopping Moinhos de Vento, a noite na Padre Chagas, o banho de sol no tour da Zona Sul até o Santuário Nossa Senhora Mãe de Deus, o capuccino na Petites Délices, o retorno à Livraria Cultura antes do filme "As mulheres do 6 andar" no cinema do Bourbon, o almoço no self-service, o pôr-do-sol no passeio de barco pela orla do Guaíba, a aventura até a rua Cipó para o bauru e a cerveja da Coruja na "Chinelagem", vieram antes e depois, pra complementar o inesquecível de uma forma sem igual.*
*Porto Alegre, 16, 17, 18 e 19 de março de 2012. Lançamento do meu primeiro livro.
domingo, 11 de março de 2012
Sobre o tempo
“O que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente.
É uma condição do mundo exterior;
é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. (...)
Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?” Thomas Mann
"Que palavra sagaz, veloz o suficiente
é capaz de dizer deste presente
em que o corpo é mero invólucro de unidades produtivas
em que o pensamento só pensa o dia por cifras?" Luciana Toneli
"O que é ter tempo?
O que é viver o tempo?
O tempo não é uma entidade fora do homem,
não é, tampouco, algo interior ao homem.
O tempo é, originalmente, o seu poder-ser.
O tempo autêntico é viver no horizonte das possibilidades.
A dinâmica de vida não é demarcada pelo presente, pelo agora ou pela sucessão de instantes,
mas pelo que é possível realizar." Edson Cruz/Martin Heidegger
"Enquanto vivermos ainda estaremos envolvidos com as nossas possibilidades.
Nessa concepção, viver o tempo e ter tempo significam realizar, constantemente,
o que pode completar o nosso ser." Ibraim Vítor de Oliveira
É uma condição do mundo exterior;
é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha. (...)
Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?” Thomas Mann
"Que palavra sagaz, veloz o suficiente
é capaz de dizer deste presente
em que o corpo é mero invólucro de unidades produtivas
em que o pensamento só pensa o dia por cifras?" Luciana Toneli
"O que é ter tempo?
O que é viver o tempo?
O tempo não é uma entidade fora do homem,
não é, tampouco, algo interior ao homem.
O tempo é, originalmente, o seu poder-ser.
O tempo autêntico é viver no horizonte das possibilidades.
A dinâmica de vida não é demarcada pelo presente, pelo agora ou pela sucessão de instantes,
mas pelo que é possível realizar." Edson Cruz/Martin Heidegger
"Enquanto vivermos ainda estaremos envolvidos com as nossas possibilidades.
Nessa concepção, viver o tempo e ter tempo significam realizar, constantemente,
o que pode completar o nosso ser." Ibraim Vítor de Oliveira
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